Onde está Olivia Pope?

Alberto Nisman Entre um episódio e outro da série Scandal e na espera ansiosa pela terceira temporada de House of Cards, abro sites de notícias e me deparo com a seguinte matéria: “Promotor argentino que denunciou Cristina Kirchner é encontrado morto”. Paro, leio, releio. Alberto Nisman, promotor federal, foi encontrado morto no banheiro de seu apartamento, no bairro portenho de Puerto Madero. A seu lado havia uma arma e um cartucho de bala. A porta do apartamento estava trancada por dentro. Surge então a primeira e mais óbvia resolução para o caso: suicídio. Onde está Olivia Pope quando mais se precisa dela? Explico.

18 de julho de 1994. 85 pessoas são mortas e 300 ficam feridas num atentado contra a Amia – Associação Mutual Israelita Argentina -, centro de convivência de judeus em Buenos Aires. Procuradores argentinos, anos mais tarde, acusam formalmente o Irã e o grupo xiita Hizbollah pelo crime.

“Não fomos nós”. Denúncias de compra de depoimentos. Interpol expede ordem de captura contra ex-funcionários iranianos. Acordo entre Irã e Argentina para esclarecer a responsabilidade pelo atentado paralisa a ordem da Interpol. Comunidade judaica da argentina não gosta. Nem o promotor Alberto Nisman, que não tinha conhecimento do acordo. Escutas telefônicas. Denúncia contra Cristina Kirchner. Ministro das Relações Exteriores, Héctor Timerman, o deputado situacionista Andrés Larroque, os líderes sociais kirchneristas Luis D’Elia e Fernando Esteche, o ex-juiz de instrução Héctor Yrimia e o líder comunitário iraniano Jorge Yussuf Khalil também são acusados.

A denúncia, baseada em escutas telefônicas, acusa Cristina Kirchner e os outros nomes citados acima de encobrirem os suspeitos do atentado contra a Amia. O motivo: impunidade em troca de petróleo. Pra quê justiça, quando se tem uma crise energética gigantesca no país? A oposição aguardava ansiosa a presença do promotor no Congresso, nesta segunda-feira, ocasião em que seriam revelados detalhes da denúncia feita na quarta-feira passada. Sua escolta deveria buscá-lo hoje às 11h30 da manhã. Nisman, que já vinha recebendo ameaças, disse em entrevista que “poderia sair morto disso”.  Infelizmente, foi o que aconteceu.

Segundo o jornal Clarín, os primeiros resultados da autópsia do corpo de Alberto Nisman já estão nas mãos da justiça e devem ser divulgados para a imprensa ainda hoje. O secretário de Segurança, Sergio Berni afirmou que “todos os caminhos levam a um suicídio”. Bem conveniente.

Jogos de poder, conspiração, manipulação de fatos e pessoas, chantagens, acordos feitos por debaixo dos panos, provas que desaparecem, ataques ao caráter que geram desmoralização, assassinatos. Esses são ótimos enredos para filmes e séries, mas que se mostram cada vez mais reais em casos como o de Nisman. Não sabemos o que vem por aí, qual será o resultado da balística ou da autópsia. Mas, não consigo ser muito positiva. Parece que sempre existe um poder maior do que o poder da democracia. E existe mesmo. Infelizmente Nisman não esteve hoje no Congresso mostrando as provas em que fundamentou sua denúncia. E nem estará. Inclusive, não sabemos sequer onde estão as mais de 300 gravações de escutas telefônicas, realizadas nos últimos anos e que estavam com o promotor. É mais um triste fato a ser registrado na investigação, que tem se arrastado nos últimos 20 anos.

A morte do promotor pode sim, não ter nada a ver com Cristina Kirchner ou com a denúncia feita poucos dias atrás. Mas as suposições feitas sobre a morte de Alberto Nisman não são fruto de teorias da conspiração. Um promotor morto por um governante de um país? Um enredo que Frank Underwood, Olivia Pope e seus gladiadores, Cyrus Beene, Jack Ballard, Rowan Pope e o B613 não estranhariam. Porque deveríamos nós? A república vizinha sofreu hoje um grande golpe e se as respostas não surgirem, as teorias virão. E, em ano eleitoral, a morte do promotor pode refletir fortemente.

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Um paraíso no Piauí

Um lugar calmo, em que é impossível andar com algo que não seja um chinelo por causa das ruas de areia. Nestas ruas, que são repletas de restaurantes, é fácil perceber diversos idiomas e sotaques pela presença de pessoas de vários locais do país e do mundo. Atraídas pela combinação perfeita da praia com o conforto de pousadas excelentes, encantam-se com as belas paisagens e a calma que o local oferece. Quem conhece Jericoacoara-CE pode achar, inicialmente, que me refiro a esta cidade. Mas não. Falo de Barra Grande, localizada no município de Cajueiro da Praia, no Litoral do Piauí. De Teresina, são cerca de 400km até chegar em Barra Grande.

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Praia de Barra Grande. Foto: Estevão Aguiar

Na charmosa rua do Pontal da Barra está a pousada que escolhemos para passar o fim de semana. O BGK – Barra Grande Kite Camp – oferece aos hóspedes um visual rústico, com muito bom gosto e ótimo atendimento. O nome da pousada não é por acaso. Os praticantes de kitesurf encontram em Barra Grande as melhores condições para o esporte: areia fofa e sem pedras, águas calmas e vento constante, estando no ranking dos melhores locais do país para a prática do esporte, tanto para profissionais, quanto para iniciantes.

Foto: Site BGK

Foto: Site BGK

Para aqueles que praticam ou simpatizam com o esporte, a pousada BGK é ideal para quem quer entrar no clima do kitesurf. O dono da pousada, Ariosto Ibiapina, tem uma história interessante. Médico em Parnaíba e trilheiro nas horas livres, conheceu Barra Grande e encantou-se pelo lugar. Comprou um terreno à beira da praia e construiu uma casa, em que descansava com a família, recebia amigos e fazia trilhas de moto. Então, descobriu o kitesurf e apaixonou-se pelo esporte.

Foto: Site BGK

O local começou a atrair os praticantes do esporte, que hospedavam-se nos pequenos chalés que Seu Ariosto construiu no fundo do terreno. A procura pelo local foi aumentando e mais chalés foram surgindo. Começava assim a Barra Grande Kite Camp, ou simplesmente BGK. 

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Foto: Estevão Aguiar

Apesar dos benefícios para os praticantes do esporte, a pousada é um paraíso para aqueles que só querem relaxar. Os chalés oferecem, em sua maioria, uma estrutura suspensa de madeira e palha. Em baixo, um pequeno lounge oferece cadeiras e espreguiçadeiras, além de redes que oferecem uma vista deslumbrante para o mar.

No bar da pousada, drinks são feitos e entregues aos hóspedes em seus chalés. O café da manhã é servido junto ao lounge principal – comum a todos os hóspedes – e ao lado é possível ver o espaço de massagens, onde os hóspedes podem aproveitar uma massagem relaxante ao som de uma música suave.

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A pousada é cortada por caminhos em madeira que fazem o acesso aos chalés.

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Saímos do hotel rumo à Cajueiro da Praia – a origem do nome da cidade está no grande número de cajueiros nativos – município em que Barra Grande fica localizada. Durante aproximadamente 15 minutos de carro, percorremos uma estrada de calçamento até o município. Chegando lá, procuramos pelo Bar do Matias, local indicado para almoço pela recepcionista do BGK. Encontramos então o Cabana Bar, nome oficial do Bar do Matias. 

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Oferecendo redes debaixo da cabana que fica na árvore, o lugar é tranquilo e tem uma vista do mar encantadora. É possível ainda arriscar alguns passos no slackline que fica bem ao lado das redes. 

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Matias, dono do Cabana Bar, nasceu na França e aos 5 anos mudou-se para a Argentina. Músico e cidadão do mundo, como ele mesmo diz, Matias passou grande parte da sua vida viajando, decidindo, no último ano, aquietar-se na tranquilidade da praia. Com o dinheiro que juntou ao longo dos anos com a música, alugou o bar, reformou a estrutura do local e passa os dias aproveitando a paisagem que o mar oferece. Ele afirma que seus dias de cidadão do mundo acabaram. Por enquanto.  

No centro da foto, Matias, dono e cozinheiro do Cabana Bar. À direita, Túlio Carvalho.

Filé de peixe com molho de ervas e purê de abóbora com cenoura

E olha, não é difícil entender o motivo da permanência de Matias. 

Foto: Estevão Aguiar

Foto: Estevão Aguiar

Foto: Estevão Aguiar

Foto: Estevão Aguiar

Foto: Estevão Aguiar

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Cajueiros na estrada que liga Barra Grande e Cajueiro da Praia. Foto: Estevão Aguiar

De volta a Barra Grande, desfrutamos outro atrativo do lugar: a gastronomia. Na mesma rua da pousada, encontramos diversas opções de restaurantes muito convidativos. Fiquei encantada com o restaurante La Cozinha, do chef belga Hervé Witmeur. Com luzes baixas, música brasileira tocando e velas iluminando as mesas, o restaurante mistura o requintado com o aconchegante.

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Logo ao lado da mesa em que fiquei, estava a horta do restaurante. Em certo momento, presenciei um dos auxiliares da cozinha recolhendo algum ingrediente que serviria para compor um dos pratos. Um detalhe que fez com que eu me sentisse em casa, como se cada prato fosse preparando especialmente para cada cliente.

Lá, experimentei o Filet ao Molho Gorgonzola com Legumes e Batata Sauté. Nada muito arriscado, já que mais cedo, ao perguntar sobre o restaurante para a atendente da farmácia que fica logo ao lado do hotel, recebi o que parecia ser uma má notícia: o atendimento no La Cozinha deixava a desejar, as comidas eram “gourmet demais”, com preços elevados e pratos pequenos. Assim, decidimos – meu namorado e eu – que o melhor a fazer seria apenas experimentar um dos pratos e seguir para outro restaurante, sem deixar de conhecer o local, mas correndo um risco a menos. Quando o pedido chegou, lamentei a decisão. O prato estava delicioso! Experimentei um dos melhores pratos que já tive a oportunidade de comer. Pedimos a conta e, apesar do atendimento que realmente deixa um pouco a desejar, sentimos o esforço e a simpatia dos atendentes, que andam a passos apressados para atender o restaurante cheio. 

Filet ao Molho Gorgonzola com Legumes e Batatas Sauté do La Cozinha

Seguimos então para o restaurante Bandoleiros, que reinaugurou há pouco mais de dois meses, sendo o atual chef um francês que está em Barra Grande há pouco mais de 6 meses.

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Ao lado do restaurante, está “La Lojita”, uma pequena loja com artigos artesanais.

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No Bandoleiros, pedimos um Filé de Robalo feito com ervas e manteiga. Um prato bom, mas que não chega a ser delicioso como o que eu havia experimentado anteriormente. De sobremesa, provei o Crepe com Nutella, que é de dar água na boca!

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Já a caminho do hotel, decidimos entrar na sorveteria Ora Bolas. Confesso que estava satisfeita com os pratos que havia experimentado, mas ao provar o sorvete “Dodelê” – doce de leite – não pude deixar de pedir. O simpático dono do local, Leandro, está há dois anos em Barra Grande. Nascido em São Paulo, Leandro trabalhava há mais de 8 anos em uma empresa na capital paulista, quando um amigo falou sobre o pequeno vilarejo no litoral piauiense. Decidido a mudar-se para Barra Grande após uma visita, Leandro passou um ano fazendo cursos sobre sorvetes, junto com a sua esposa. A decisão por uma sorveteria foi aleatória, já que ele não tinha qualquer conhecimento sobre o ramo. Ao terminar os cursos, saiu do emprego, comprou o maquinário necessário e mudou-se para Barra Grande. Hoje, feliz com a sorveteria e com a vida no vilarejo, Leandro não pretende voltar para São Paulo. 

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Outro restaurante que merece destaque é o Manga Rosa. Iluminação baixa, mesas na areia e decoração rústica compõem o visual do restaurante. Apesar das cadeiras pouco confortáveis, o ambiente é agradável.

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Foto: divulgação na internet.

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Foto: divulgação na internet.

O prato mais famoso do restaurante é o Peixe Manga Rosa, uma pescada amarela preparada com molho de manga e pimenta. Apesar da fama do prato, experimentei e não gostei. Tive a impressão de um molho que fica na superfície do peixe, mas que sua carne permanece sem tempero. Além da combinação manga, peixe e pimenta não ter me agradado.

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Foto: divulgação na internet.

Pedi então o Peixe à Delícia e, depois do desapontamento com o Peixe Manga Rosa, me surpreendi com um prato extraordinário. Voltei para casa desejando encontrar em Teresina um peixe feito com molho branco, bananas e queijo tão delicioso como o do restaurante Manga Rosa.

Encantada e orgulhosa com a estrutura que encontrei nesta parte do litoral piauiense, decidi já perto de voltar escrever sobre Barra Grande. O Piauí, que oferece uma estrutura tão pequena para os turistas que desejam visitar o nosso estado, vê se desenvolver em seu litoral um paraíso em conforto, gastronomia e diversão. E é fácil notar que as pessoas que acreditaram no vilarejo não são piauienses, em sua maioria. São paulistas, cariocas, mineiros, franceses e belgas que viram o potencial do lugar e hoje estão satisfeitos com os investimentos que fizeram. Em nossa mania de valorizar o que é de fora, deixamos de apostar naquilo que é nosso e que pode tornar-se grande aos olhos do mundo, como Barra Grande tornou-se. Espero voltar em breve nesse lugar que muito me encantou e espero o constante desenvolvimento do que era uma vila de pescadores e que tem se tornado um oásis de tranquilidade e conforto.

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A morte de Eduardo Campos e a crueldade nas redes sociais

Com a notícia da morte do presidenciável Eduardo Campos em um acidente aéreo, nesta quarta (13), o nome do candidato do PSB repercutiu nas redes sociais. Mensagens de comoção, apoio aos familiares de Campos e piadas de mau gosto começaram a surgir. A frase “Foi a Dilma” está, até agora, entre os “Trending Topics” do Twitter no Brasil. Entre os famosos que comentaram a tragédia, está o humorista Maurício Meirelles, do CQC, que fez piada. 

— O aeroporto era do Aécio? — perguntou Meirelles no Twitter.

O humorista excluiu o post do Twitter após a repercussão da mensagem. 

Já o vocalista do Ultraje a Rigor, Roger Rocha postou a seguinte mensagem: “Pronto, vai virar santo. E herói”. 

 

Em resposta, o cantor recebeu inúmeras críticas dos usuários do microblog, que pediam respeito e compaixão.

Outros usuários fizeram piadas com as “horcruxes” do filme Harry Potter.

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Em um momento em que não existem palavras para lamentar a situação, os usuários das redes sociais mostram insensibilidade. Não é mais suficiente comentar com um mínimo de empatia sobre um avião que caiu, levando à morte sete pessoas e que entre elas estava um jovem político de 49 anos, que morre deixando 5 filhos. No mundo em que notícias quentes deixam de ser novidade muito rápido, reformula-se a abordagem do assunto. Assim, nascem as piadas de mau gosto, que, felizmente, são rechaçadas pelo bom senso de tantos outros usuários da rede. 

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Além das redes sociais, a cobertura jornalística também não deixa a desejar no quesito insensibilidade. Com a televisão ligada na Globo News desde as primeiras notícias sobre a queda do avião, acompanho uma cobertura que cogita o próximo sucessor, que faz análises políticas, que prevê o que acontecerá nas eleições e transforma a morte de um homem em uma disputa de ibope. O corpo de Eduardo Campos ainda não foi sequer enterrado e o assunto gira em torno de “O que fará o PSB com a morte de Eduardo. Indicará Marina Silva como candidata a presidente? Apoiará Dilma?”, como foi publicado no Twitter do @BlogdoNoblat, do jornalista Ricardo Noblat.

É indiscutível que a morte de um político com a visibilidade que tinha Eduardo Campos leve a comentários envolvendo política, principalmente faltando tão pouco tempo para as eleições. Mas, sinceramente, não consigo encarar certos comentários, como o que o ministro Marco Aurélio Mello fez ao falar sobre a morte de Eduardo Campos. O ministro, em entrevista a Globo News, considera que a perda “embaralha a disputa”. 

Absurdo não é contextualizar a morte do político Eduardo Campos. Absurdo é desumanizar o homem Eduardo Campos e fazer da política o enfoque principal em uma tragédia, desrespeitando a dor de amigos e familiares. Absurdo é esquecer que sete vidas foram ceifadas em um trágico acidente, e que cada uma dessas pessoas tem uma história e tinham uma vida pela frente. Absurdo é fazer piada com a morte alheia.

Veja alguns comentários e fotos publicadas nas redes sociais:

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As correntes que me prendem

Trecho do filme 12 anos de escravidão – Música: Roll Jordan Roll
 

Eu poderia facilmente ter perdido as contas sobre o tempo que passei aqui, já que não existe nada que diferencie um dia do outro. Mas, lembro-me bem de cada momento – não é fácil esquecer quando somos marcados pelo ferro. O levantar antes do sol nascer, a comida insuficiente e amarga, o trabalho esgotante, o gosto salgado do suor a escorrer pelo rosto, o colchão de pedra que ironicamente afaga a exaustão. Repetindo-se. Dia após dia. Ano após ano.

Faço parte de uma legião de negros de expressões vazias, vagando, tantas vezes banhados em sangue. Sentindo a mais profunda crueldade humana ser derramada sobre nossos corpos escuros, sem piedade. Porque, afinal, não somos humanos. Somos animais domesticados pelo açoite, que aos gritos e abusos não podemos dar resposta. Como cachorros, baixamos a cabeça, sem nunca revidar.

Ainda sou jovem, mas estou certo de que não viverei por muito mais tempo. Nasci escravo e assim morrerei. Sobrevivendo a cada dia, nunca tive alegrias. De pôr do sol a pôr do sol, não me lembro de um momento sequer de conforto. Endureci bem cedo o meu coração – cada um tem a sua forma de lidar com a dor. Vi alguns enlouquecerem, outros ficarem cegos pela raiva e muitos emudecerem em profunda desilusão. Vi tantos outros, em meio a gemidos, preces e sorrisos, buscarem um conforto – na fé, no amor, na esperança.

Nunca esquecerei o canto que sai daqueles lábios grossos e ressecados, tão semelhantes aos meus. Nesses frequentes momentos, enterramos nossos mortos e a eles oferecemos uma canção, com vozes unidas em uma só. Muitas vezes não cantei. Apenas observava, sentia e ouvia. O som das palmas, das vozes envoltas em sentimentos inexprimíveis, os rostos num misto de revolta, dor e desespero – mas que em algum momento, deixavam transparecer um resquício de esperança num leve traço de sorriso. Esqueciam-se por um instante, envolvidos pela melodia, do sono interrompido pelo chicote. Do som que fazia o arquejo e o último lamento dos que morriam todos os dias. Das lágrimas engolidas pelo chão imundo em que dormiam. No canto fúnebre, cantavam sobre a liberdade que nunca poderiam ter. Ou sobre a morte, tantas vezes em dor almejada.
 
Famintos, sedentos, tão cansados e infelizes. Um dia cairemos para nunca mais levantar – pelo açoite, pela peste, pela fome ou pela exaustão. Não vivemos muito, então sabemos que será logo. Cantamos com a certeza de que um dia cantarão para nós. Naquele dia, as correntes que nos prendem nunca mais tocarão os nossos braços. E finalmente descansaremos.
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Intransponível

 
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A vida nos oferece constantemente desafios a serem superados. Em cada fase das nossas vidas, ultrapassamos barreiras e vencemos obstáculos. Não raro, encontramos um oceano de problemas que parece intransponível. E como é fácil desanimar enquanto nadamos contra a correnteza! É tão mais fácil deixar-se levar pelas águas e sentir o corpo escorrer para o desconhecido. É tão mais fácil desistir da vitória e contentar-se com a derrota pelo cansaço que a luta traz. Como é fácil desistir e trancar os sonhos numa gaveta – jogando a chave para bem longe – fugindo do fantasma que persegue as consciências atribuladas. Na ânsia de sair do nosso presente cruel, nos prendemos ao passado e constantemente dizemos: Como é fácil ser criança!

Infelizmente, perdemos ao longo dos anos as lições aprendidas na nossa infância. Você, como eu, foi um bebê dependente e frágil. Acompanhávamos o que acontecia ao nosso redor com olhos curiosos. Descobrimos aos poucos nossos pequenos dedinhos e os observávamos atentamente. Demos nossos primeiros sorrisos, acompanhados da alegria daqueles que nos cercavam – que permaneceram nos cuidando, alimentando e acariciando. Pouco tempo depois, já tentávamos alcançar os objetos que encontrávamos na nossa frente. Balbuciamos os primeiros sons e percebemos a desaprovação na voz dos nossos pais. Começamos aos poucos a sentar sem apoio e rapidamente, nossos pais já não sabiam onde nos encontrar – já podíamos engatinhar. Logo, arriscamos a ficar de pé. Segurando na mão das nossas mães, sentíamos a segurança necessária para arriscar os primeiros passos. Em pouco tempo, caminhávamos sem ajuda. Em pouco tempo, falávamos. Em pouco tempo, crescemos. E não nos demos conta disso.

Desde crianças aprendemos a superar desafios, a enfrentar os medos e arriscar. Não desistimos de aprender a caminhar, mesmo sem ter ideia de como deveríamos começar. Não desistimos de aprender a falar, mesmo sabendo apenas balbuciar sons inteligíveis. Algumas vezes, superamos sozinhos as nossas dificuldades. Outras, precisávamos de uma mão a nos segurar. Agora, enquanto adultos, nos esquecemos de que, antes de caminhar, engatinhamos. Antes de engatinhar, aprendemos a nos sentar. Esquecemos que, no passado, com muita humildade, aceitamos os conselhos dos mais velhos e escutamos o que nos tinham a dizer. Demos um passo de cada vez antes de começar a correr.

O oceano que surge impetuoso na nossa vida não desaparece pela força do nosso desejo. Ele irrompe nossos dias e tenta nos afogar no nosso medo. Lembre-se então dos seus dias de criança e dê um passo de cada vez. Olhe para trás e pense no que a criança que você já foi um dia faria no seu lugar. Procure segurança naqueles que nunca o desampararam. Deixe a criança que você foi orgulhosa da pessoa que você se tornou. E transponha o intransponível.

Conselhos mudos

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Não vou ocupar muito do seu tempo contando a minha história. Você parece ser impaciente demais pra escutar sobre um passado tão velho que cheira a mofo.
Nasci em 1927 e nesses 86 anos de vida vi o mundo mudar. Fui criança na Era Vargas e recebi as cartilhas de Getúlio. Vi o início, meio e fim da Segunda Guerra Mundial. Tornei-me médico, casei com Amara em 1958, tive dois filhos. Cantei “Chega de Saudade” e “Desafinado”.  Vi o auge da opressão na Ditadura Militar e presenciei sua queda. Comemorei a Nova República. Estoquei mantimentos por causa da inflação. Meus filhos casaram-se e foram viver em Santa Catarina.  O câncer de mama levou minha esposa aos 52 anos. Aposentei-me.

Vivo só. Tenho um bom apartamento, bem ventilado, grande. Grande demais. Da televisão vem o único som que preenche o lugar. Passo o dia sentado na poltrona passeando pelos canais da TV. Antes lia muito, agora a visão cansada não permite mais.
Se me sinto sozinho? Não. A solidão é a liberdade que dou aos meus filhos de viverem suas vidas. Além do mais, acostumei-me a ela. Melhor estar na ausência de pessoas do que rodeado de companhias vazias.

Todos os dias o Raimundo, meu taxista, me pega em casa às 12h. Como você vê diariamente, almoço aqui no shopping. Gosto de sentar e olhar ao redor, analisando as pessoas que passam. Não é por querer que os velhos adquirem esse rosto de sabedoria muda. É pelo muito pensar. Tenho um mundo particular aqui dentro, que adoraria aconselhar cada pai apressado, cada mãe irritada, cada filho mal educado. Gostaria de dizer-lhes que a única garantia que temos quando nascemos, é que vamos morrer um dia. Vivemos como se nunca fosse acontecer conosco, como se a morte fosse uma piada de mal gosto que ninguém quer fazer parte. Um puxão repentino que te leva pra debaixo da terra, e não te dá tempo de despedir-se de ninguém. Não te dá tempo de arrumar as malas, guardar os papéis, doar o dinheiro acumulado que não vai mais te servir de nada. Não te dá tempo de acalmar as pessoas ao seu redor, de prepará-las pra sua eterna ausência e evitar a perplexidade. 
Mas, quem escuta gente velha?

Preferem olhar-me com curiosidade, sorrindo dos meus passos vagarosos, irritando-se quando atrapalho seu percurso corrido, ou ainda sentindo pena do velho solitário no meio do shopping. Não entendem que talvez, daqui a alguns anos, estarão eles também no meu lugar. Terão dificuldade pra andar, enxergar, ouvir e compreender. Precisarão de ajuda ao atravessar a rua. Isso se não partirem antes, no meio de um tiroteio, por causa de uma doença repentina ou de um motorista embriagado. Isso se não deixarem seus filhos perguntando o porquê tão cedo. E terão todas as pistas da sua existência apagadas pelo tempo.

Meus filhos chorarão a minha morte. Meus netos, lembrarão de mim por algum tempo e quem sabe, citarão meu nome em um jantar de família com os bisnetos que não conheci. Com alguma sorte, terei uma fotografia amarelada no velho álbum de retratos esquecido dentro do armário. Logo, o álbum também não existirá mais. Em pouco tempo, todo o legado da minha existência desaparecerá. As gerações seguintes carregarão o meu sobrenome, sem jamais saber quem fui. E assim acontecerá com você também.
Você pode trazer a conta?

Quando a arrogância censura o conhecimento

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Dr. Rodrigo Silva(à esq.), um dos palestrantes do evento 
e o físico Leandro Tessler, que mobilizou professores contra o Fórum.  

“Posso não concordar com uma palavra do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo” 
(Voltaire)
A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) cancelou o “1° Fórum de Filosofia e Ciência das Origens” que aconteceria na quinta-feira, 17. A universidade cedeu às pressões de professores ateus da própria instituição, que alegaram não ser a Unicamp o lugar adequado para discutir sobre o Criacionismo. “Que façam isso numa igreja”, disse o professor de física Leandro Tessler. “É embaraçoso dar credibilidade a esse tipo de doutrina não científica.” 
O fórum contaria com a presença de estudiosos do tema, como o geólogo Nahor Neves de Souza Jr., o físico americano Dr. Russell Humphreys, o jornalista Michelson Borges, o químico Dr. Marcos Eberlin e o arqueólogo Dr. Rodrigo Silva – todos ligados ao criacionismo científico. 
Três dias antes do evento, o Fórum foi cancelado. A Unicamp, em nota oficial, explicou o cancelamento dizendo que “faltavam integrantes que pudessem debater o tema sob todos os pontos de vista”. O professor de matemática Samuel Oliveira criticou o evento. “Criacionistas não têm formação para falar de ciência”, diz.

Em contrapartida, os palestrantes se manifestaram. O químico Marcos Eberlin – professor da Unicamp – escreveu em um blog: “Infelicidade é notar que a melhor universidade brasileira se deixa guiar pela opinião subjetiva de alguns e, mais uma vez, de última hora, impede a exposição de argumentos.” O professor de arqueologia Rodrigo Silva afirmou: “Fomos boicotados por um grupo de professores ateus. Hoje, quem discorda de Darwin é queimado na fogueira.”

Veja aqui a notícia na revista Istoé, as críticas do professor Leandro Tessler e a resposta do Dr. Rodrigo Silva.

Quando li a matéria da revista Istoé, não pude deixar de notar a semelhança do fato com o que ocorria na Igreja Medieval – que não permitia opiniões e posições contrárias aos seus dogmas – acontecendo em pleno século XXI. Assim como a Inquisição, os professores da renomada universidade usaram desculpas e fracas justificativas para evitar a exposição de argumentos contrários às suas ideias. Em sua arrogância, fecharam as portas para o que serviria de conhecimento e formação de opinião de seus alunos – afinal, é assim que eu, enquanto aluna, formo minha opinião sobre determinado assunto: depois de escutar, estudar e analisar criticamente o exposto.
Professores abrem as portas. Nós, devemos escolher por qual delas entrar. Mas, se os mestres nos escondem aquilo que desprezam e nos oferecem apenas aquilo em que acreditam, que liberdade de pensamento há nisso? Que argumentos terei eu para defender uma teoria vazia, que repito por ter ouvido falar?

Não estou aqui para defender o mérito da discussão entre evolucionistas e criacionistas. Acredito sim, em Deus e na criação do mundo de acordo com a Bíblia. Porém, o que exponho aqui é a falta de diálogo e arbitrariedade sobre a informação. O que exponho aqui é o episódio lamentável ocorrido na universidade, que mostrou os defensores do evolucionismo – que um dia tiveram que lutar pelo direito de exibir suas ideias ao mundo – reprimindo o direito de expressão, agindo exatamente como seus opressores do passado. Acredito que o papel de uma instituição de ensino e seus educadores é incitar o debate, abordar temas diversos, incentivar o conhecimento humano, sem restrições. Infelizmente, esse não foi o primeiro caso de censura ao conhecimento e não será o último. 
Imagine só, que mundo diferente teríamos se fôssemos tolerantes e abertos ao diálogo sobre os assuntos que discordamos ou até mesmo, não conhecemos? Imagine que loucura aprender a debater e a escutar opiniões diferentes das nossas?  

Desatino.

O sol começava a sumir no horizonte. Confundindo-se entre os prédios gigantescos, sua luz diminuía, como se estivesse prestes a se apagar. O tom avermelhado misturava-se ao céu azul-escuro que começava a mergulhar na escuridão. Imperceptível e silencioso, o sol desapareceu na noite que tornava-se cada vez mais densa, palpável. As luzes da cidade tomavam agora o lugar antes ocupado pela estrela brilhante.

Ele, observando o céu e a cidade pouco conhecida ao seu redor, caminhava em direção à sua rotina de cada início de noite. A música no fone de ouvido dava tom a cada rua que atravessava, proporcionando a sensação ambígua de liberdade e arrependimento. A vontade de correr e fugir de todas as lembranças e pensamentos que o prendiam como âncora no mar tomava conta da sua cabeça. No mesmo instante, lembrava do sorriso e do efeito encantador daquela que amava. O coração, então, pesava. Olhou para o horizonte e se perguntou onde ela estaria naquele momento. Enquanto ele tornava-se cada dia um pouco mais desleal – pensando nas suas atitudes tanto quanto alguém que atravessa uma rua desatentamenteela ainda esperava o telefone tocar ansiosamente, na esperança de ouvir sua voz. Pensou, tristemente, na pessoa que ele era – muito diferente da que dizia ser.

Empurrou a porta da lanchonete e fixou seu olhar na mulher que o prendia pelo incompreensível e proibido – viver em meio ao que se desconhece para ele no princípio pareceu detestável. Entretanto, não demorou muito para isto tornar-se o melhor atrativo do enigma que ela representava. Não sabia como explicar, mas ela o fazia tornar-se levemente negligente com o que antes considerava convicções e princípios. Conversavam amenidades, na mesma mesa que os recebia diariamente. Aquela mesa guardava consigo todas as lembranças e planos para o futuro que faziam entre as mãos entrelaçadas. Planos estes que eram quebrados com tanta frequência quanto os palitos retirados distraidamente do paliteiro – partidos ao meio sem o menor esforço – durante uma conversa distraída. Mesmo assim, ele prendia-se àquela vida errônea de aventuras e mistérios, vida esta tão obscura quanto o coração dela.

O anel no dedo o denunciava, mas ela não parecia importar-se. Ele, entretanto, sentia o peso que ele representava e as memórias incrustadas em cada átomo do material que o constituía. Sorriam, porém, dos caminhos distintos que a vida tinha destinado para cada um e da forma que de repente, haviam se cruzado, apesar das diversas placas de Pare no meio da estrada. Todos os dias, o mesmo café os esperava. Lutavam para deixar a vida real de fora das portas de vidro do estabelecimento e conseguiam fazê-lo no momento em que se abraçavam. Lá fora, outras duas vidas ignoravam o que acontecia. Enganadas pelas mesmas mãos que entrelaçavam em outras, pelos mesmos olhares que cruzavam com outros, pelos mesmos lábios que beijavam outra boca.

Mulherzinha

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Um mês antes do Dia dos Namorados, decidi começar a fazer um scrapbook. Comprei um caderno pequeno, personalizei as páginas, colei fotos, recortei papéis coloridos, elaborei frases, comprei fitas e botões. Tive um trabalho imenso, fiquei acordada até tarde por várias noites seguidas para conseguir terminar a tempo. Em outra data comemorativa, presenteei meu namorado com um baralho personalizado – cada carta continha um motivo para amá-lo. Foram 52 cartas com frases e colagens. E enquanto eu cortava, colava e escrevia, observava os olhares curiosos – e atravessados – da família. Traduzindo o que sua mente pensava no mais delicado eufemismo que conseguiu encontrar, minha irmã disparou: “Você é mulherzinha.”
E sou mesmo.
Gosto de surpresas e de cuidados. Abrir a porta do carro, diminuir a velocidade do passo pra acompanhar a minha tentativa de equilíbrio em cima de um salto, flores, ligação pra dar bom dia, atitudes inesperadas, demonstração de interesse no que falo – mesmo que não seja nada interessante. Relacionamento é zelo. E tem que ser via de mão dupla.

Não nasci pra fazer papel de homem. Pode me chamar de ultrapassada e antiga. Pode me dizer que estamos no século XXI e que o tempo da sociedade patriarcal passou. Pra mim, algumas coisas simplesmente não deveriam mudar. Homem tem que pedir em casamento, homem tem que ser provedor, homem tem que ser homem. E entenda bem: ser homem não significa ser um macho primitivo, ignorante e grosseiro. Não significa pagar a conta e por isso, sentir-se no direito de maltratar sua companheira. Não significa inferiorização. Não significa colocá-la em uma posição humilhante e submissa a todas as suas vontades. 
Significa mais do que qualquer outra coisa, ter afeto, cuidado e atenção. 
Por outro lado, também não nasci pra ser Amélia. Cozinho – mal – por brincadeira, não tenho dom para ser faxineira, nem quero viver uma vida anulada em prol da criação dos filhos. Quero uma carreira, ter meu dinheiro, encontrar com minhas amigas de vez em quando e tempo para academia. Mas, ainda quero aprender sim a cozinhar, quero manter a minha casa organizada e limpa, quero educar meus filhos da melhor forma que puder. E quero um marido que me ajude em tudo isso. 
Aplaudo em pé e agradeço pelas conquistas que o movimento feminista trouxe para as mulheres. Mas, acredito que as coisas perderam o foco. Bacana a igualdade entre homens e mulheres no que diz respeito à remuneração, direito a voto, e tudo mais. Pra mim o foco se perde quando vejo mulheres defendendo que podem e devem comportar-se como homens. Perder as contas de quantas beijou numa noite, ir pra cama com outras várias, trair e beber até cair: tudo isso é feio quando é feito por um homem. Mas, torna-se ridículo quando feito por uma mulher. Não somos iguais – é contra a própria natureza afirmar o contrário – e só quem perde querendo igualar-se em comportamentos tão degradantes é a própria mulher. 
Nós mulheres somos capazes sim, de sustentar uma família. Podemos ter voz de comando dentro de casa, podemos trabalhar e deixar nossos maridos cuidando dos filhos. Podemos pagar ou dividir uma conta. Podemos fazer um casamento surpresa pro nosso namorado porque estávamos com vontade de casar e faltou atitude da parte dele. Mas, no fundo, não queremos isso. Cada um de nós exerce funções fundamentais dentro de um relacionamento. A medida de todas as coisas tem que ser o equilíbrio e não a luta entre duas forças tão distintas – mas que se completam. 

Covarde.

violent delights
Uso pouco a voz. A maioria das palavras fica aqui, inaudível, dentro dessa cabeça sem memória – que acaba por engolir o que deveria ser dito, digerindo no estômago do esquecimento tudo aquilo que deveria ser lembrado. A verdade é que sou covarde. Desculpem a rima sem graça, mas é isso mesmo. Não tem outra definição ou palavra que substitua. Covarde.
Já fiz drama, chorei, briguei, bati o pé e ainda assim, deixei de dizer muito do que senti vontade. Medo disfarçado de prudência? Talvez. Ou, aceitação pelo simples fato de ser cansativo brigar. E por ser cansativo brigar, pra quê falar? Prolongar o que já é longo demais? Mais fácil engolir o que se tem a dizer, a correr o risco de piorar as coisas. Covardia.
Além do mais, não entendo isso de intransigência. Como diz o filósofo Heráclito, ninguém se banha no mesmo rio duas vezes.  Sendo assim, como posso eu, ser mutável e inconstante, afirmar algo pra nunca mais poder voltar atrás? Será que preciso mesmo pensar mil vezes naquilo que vou falar sob pena de ter a frase jogada na minha cara repetidas vezes, quando sei lá, encontrar um argumento melhor que o meu e mudar de ideia? Por isso opto pelo silêncio, é mais fácil e não me deixa sem saber o que falar sobre um ponto de vista variável qualquer. Covardia.

Anyway. Há quem diga que sabedoria é calar-se. Muitas vezes, entretanto, calar-se é sinônimo de anulação.  Escrevo por ser a única coisa que me resta a fazer nessa noite quente, cheia de calores e emoções afetadas. Escrevo pelo orgulho ferido. Escrevo por saber que é melhor escrever que dizer, já que tudo que parece importante hoje, amanhã se esvai com o passar das horas. Escrevo porque me cala e se não o fizesse, explodiria. E imagina que horror.
-“Ficou sabendo? A garota morreu.” -“Morreu?? De quê?” -“Explodiu de covardia.”