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As correntes que me prendem

Trecho do filme 12 anos de escravidão – Música: Roll Jordan Roll
 

Eu poderia facilmente ter perdido as contas sobre o tempo que passei aqui, já que não existe nada que diferencie um dia do outro. Mas, lembro-me bem de cada momento – não é fácil esquecer quando somos marcados pelo ferro. O levantar antes do sol nascer, a comida insuficiente e amarga, o trabalho esgotante, o gosto salgado do suor a escorrer pelo rosto, o colchão de pedra que ironicamente afaga a exaustão. Repetindo-se. Dia após dia. Ano após ano.

Faço parte de uma legião de negros de expressões vazias, vagando, tantas vezes banhados em sangue. Sentindo a mais profunda crueldade humana ser derramada sobre nossos corpos escuros, sem piedade. Porque, afinal, não somos humanos. Somos animais domesticados pelo açoite, que aos gritos e abusos não podemos dar resposta. Como cachorros, baixamos a cabeça, sem nunca revidar.

Ainda sou jovem, mas estou certo de que não viverei por muito mais tempo. Nasci escravo e assim morrerei. Sobrevivendo a cada dia, nunca tive alegrias. De pôr do sol a pôr do sol, não me lembro de um momento sequer de conforto. Endureci bem cedo o meu coração – cada um tem a sua forma de lidar com a dor. Vi alguns enlouquecerem, outros ficarem cegos pela raiva e muitos emudecerem em profunda desilusão. Vi tantos outros, em meio a gemidos, preces e sorrisos, buscarem um conforto – na fé, no amor, na esperança.

Nunca esquecerei o canto que sai daqueles lábios grossos e ressecados, tão semelhantes aos meus. Nesses frequentes momentos, enterramos nossos mortos e a eles oferecemos uma canção, com vozes unidas em uma só. Muitas vezes não cantei. Apenas observava, sentia e ouvia. O som das palmas, das vozes envoltas em sentimentos inexprimíveis, os rostos num misto de revolta, dor e desespero – mas que em algum momento, deixavam transparecer um resquício de esperança num leve traço de sorriso. Esqueciam-se por um instante, envolvidos pela melodia, do sono interrompido pelo chicote. Do som que fazia o arquejo e o último lamento dos que morriam todos os dias. Das lágrimas engolidas pelo chão imundo em que dormiam. No canto fúnebre, cantavam sobre a liberdade que nunca poderiam ter. Ou sobre a morte, tantas vezes em dor almejada.
 
Famintos, sedentos, tão cansados e infelizes. Um dia cairemos para nunca mais levantar – pelo açoite, pela peste, pela fome ou pela exaustão. Não vivemos muito, então sabemos que será logo. Cantamos com a certeza de que um dia cantarão para nós. Naquele dia, as correntes que nos prendem nunca mais tocarão os nossos braços. E finalmente descansaremos.
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Intransponível

 
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A vida nos oferece constantemente desafios a serem superados. Em cada fase das nossas vidas, ultrapassamos barreiras e vencemos obstáculos. Não raro, encontramos um oceano de problemas que parece intransponível. E como é fácil desanimar enquanto nadamos contra a correnteza! É tão mais fácil deixar-se levar pelas águas e sentir o corpo escorrer para o desconhecido. É tão mais fácil desistir da vitória e contentar-se com a derrota pelo cansaço que a luta traz. Como é fácil desistir e trancar os sonhos numa gaveta – jogando a chave para bem longe – fugindo do fantasma que persegue as consciências atribuladas. Na ânsia de sair do nosso presente cruel, nos prendemos ao passado e constantemente dizemos: Como é fácil ser criança!

Infelizmente, perdemos ao longo dos anos as lições aprendidas na nossa infância. Você, como eu, foi um bebê dependente e frágil. Acompanhávamos o que acontecia ao nosso redor com olhos curiosos. Descobrimos aos poucos nossos pequenos dedinhos e os observávamos atentamente. Demos nossos primeiros sorrisos, acompanhados da alegria daqueles que nos cercavam – que permaneceram nos cuidando, alimentando e acariciando. Pouco tempo depois, já tentávamos alcançar os objetos que encontrávamos na nossa frente. Balbuciamos os primeiros sons e percebemos a desaprovação na voz dos nossos pais. Começamos aos poucos a sentar sem apoio e rapidamente, nossos pais já não sabiam onde nos encontrar – já podíamos engatinhar. Logo, arriscamos a ficar de pé. Segurando na mão das nossas mães, sentíamos a segurança necessária para arriscar os primeiros passos. Em pouco tempo, caminhávamos sem ajuda. Em pouco tempo, falávamos. Em pouco tempo, crescemos. E não nos demos conta disso.

Desde crianças aprendemos a superar desafios, a enfrentar os medos e arriscar. Não desistimos de aprender a caminhar, mesmo sem ter ideia de como deveríamos começar. Não desistimos de aprender a falar, mesmo sabendo apenas balbuciar sons inteligíveis. Algumas vezes, superamos sozinhos as nossas dificuldades. Outras, precisávamos de uma mão a nos segurar. Agora, enquanto adultos, nos esquecemos de que, antes de caminhar, engatinhamos. Antes de engatinhar, aprendemos a nos sentar. Esquecemos que, no passado, com muita humildade, aceitamos os conselhos dos mais velhos e escutamos o que nos tinham a dizer. Demos um passo de cada vez antes de começar a correr.

O oceano que surge impetuoso na nossa vida não desaparece pela força do nosso desejo. Ele irrompe nossos dias e tenta nos afogar no nosso medo. Lembre-se então dos seus dias de criança e dê um passo de cada vez. Olhe para trás e pense no que a criança que você já foi um dia faria no seu lugar. Procure segurança naqueles que nunca o desampararam. Deixe a criança que você foi orgulhosa da pessoa que você se tornou. E transponha o intransponível.

Conselhos mudos

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Não vou ocupar muito do seu tempo contando a minha história. Você parece ser impaciente demais pra escutar sobre um passado tão velho que cheira a mofo.
Nasci em 1927 e nesses 86 anos de vida vi o mundo mudar. Fui criança na Era Vargas e recebi as cartilhas de Getúlio. Vi o início, meio e fim da Segunda Guerra Mundial. Tornei-me médico, casei com Amara em 1958, tive dois filhos. Cantei “Chega de Saudade” e “Desafinado”.  Vi o auge da opressão na Ditadura Militar e presenciei sua queda. Comemorei a Nova República. Estoquei mantimentos por causa da inflação. Meus filhos casaram-se e foram viver em Santa Catarina.  O câncer de mama levou minha esposa aos 52 anos. Aposentei-me.

Vivo só. Tenho um bom apartamento, bem ventilado, grande. Grande demais. Da televisão vem o único som que preenche o lugar. Passo o dia sentado na poltrona passeando pelos canais da TV. Antes lia muito, agora a visão cansada não permite mais.
Se me sinto sozinho? Não. A solidão é a liberdade que dou aos meus filhos de viverem suas vidas. Além do mais, acostumei-me a ela. Melhor estar na ausência de pessoas do que rodeado de companhias vazias.

Todos os dias o Raimundo, meu taxista, me pega em casa às 12h. Como você vê diariamente, almoço aqui no shopping. Gosto de sentar e olhar ao redor, analisando as pessoas que passam. Não é por querer que os velhos adquirem esse rosto de sabedoria muda. É pelo muito pensar. Tenho um mundo particular aqui dentro, que adoraria aconselhar cada pai apressado, cada mãe irritada, cada filho mal educado. Gostaria de dizer-lhes que a única garantia que temos quando nascemos, é que vamos morrer um dia. Vivemos como se nunca fosse acontecer conosco, como se a morte fosse uma piada de mal gosto que ninguém quer fazer parte. Um puxão repentino que te leva pra debaixo da terra, e não te dá tempo de despedir-se de ninguém. Não te dá tempo de arrumar as malas, guardar os papéis, doar o dinheiro acumulado que não vai mais te servir de nada. Não te dá tempo de acalmar as pessoas ao seu redor, de prepará-las pra sua eterna ausência e evitar a perplexidade. 
Mas, quem escuta gente velha?

Preferem olhar-me com curiosidade, sorrindo dos meus passos vagarosos, irritando-se quando atrapalho seu percurso corrido, ou ainda sentindo pena do velho solitário no meio do shopping. Não entendem que talvez, daqui a alguns anos, estarão eles também no meu lugar. Terão dificuldade pra andar, enxergar, ouvir e compreender. Precisarão de ajuda ao atravessar a rua. Isso se não partirem antes, no meio de um tiroteio, por causa de uma doença repentina ou de um motorista embriagado. Isso se não deixarem seus filhos perguntando o porquê tão cedo. E terão todas as pistas da sua existência apagadas pelo tempo.

Meus filhos chorarão a minha morte. Meus netos, lembrarão de mim por algum tempo e quem sabe, citarão meu nome em um jantar de família com os bisnetos que não conheci. Com alguma sorte, terei uma fotografia amarelada no velho álbum de retratos esquecido dentro do armário. Logo, o álbum também não existirá mais. Em pouco tempo, todo o legado da minha existência desaparecerá. As gerações seguintes carregarão o meu sobrenome, sem jamais saber quem fui. E assim acontecerá com você também.
Você pode trazer a conta?

Covarde.

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Uso pouco a voz. A maioria das palavras fica aqui, inaudível, dentro dessa cabeça sem memória – que acaba por engolir o que deveria ser dito, digerindo no estômago do esquecimento tudo aquilo que deveria ser lembrado. A verdade é que sou covarde. Desculpem a rima sem graça, mas é isso mesmo. Não tem outra definição ou palavra que substitua. Covarde.
Já fiz drama, chorei, briguei, bati o pé e ainda assim, deixei de dizer muito do que senti vontade. Medo disfarçado de prudência? Talvez. Ou, aceitação pelo simples fato de ser cansativo brigar. E por ser cansativo brigar, pra quê falar? Prolongar o que já é longo demais? Mais fácil engolir o que se tem a dizer, a correr o risco de piorar as coisas. Covardia.
Além do mais, não entendo isso de intransigência. Como diz o filósofo Heráclito, ninguém se banha no mesmo rio duas vezes.  Sendo assim, como posso eu, ser mutável e inconstante, afirmar algo pra nunca mais poder voltar atrás? Será que preciso mesmo pensar mil vezes naquilo que vou falar sob pena de ter a frase jogada na minha cara repetidas vezes, quando sei lá, encontrar um argumento melhor que o meu e mudar de ideia? Por isso opto pelo silêncio, é mais fácil e não me deixa sem saber o que falar sobre um ponto de vista variável qualquer. Covardia.

Anyway. Há quem diga que sabedoria é calar-se. Muitas vezes, entretanto, calar-se é sinônimo de anulação.  Escrevo por ser a única coisa que me resta a fazer nessa noite quente, cheia de calores e emoções afetadas. Escrevo pelo orgulho ferido. Escrevo por saber que é melhor escrever que dizer, já que tudo que parece importante hoje, amanhã se esvai com o passar das horas. Escrevo porque me cala e se não o fizesse, explodiria. E imagina que horror.
-“Ficou sabendo? A garota morreu.” -“Morreu?? De quê?” -“Explodiu de covardia.”

O que é real

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Começou a caminhar sem destino dentro do shopping, afinal, terminara tudo que precisava fazer ali. Com uma apostila nos braços e um livro qualquer na mochila, sentiu que não teria problema demorar um pouco mais ali. Ficar sozinha sempre a agradou. Sentou em uma das mesas, jogou a mochila na cadeira ao lado e vasculhou aquela infinidade de papéis, materiais para aulas e chaves, até finalmente encontrar o livro.
Começou a ler, mas a concentração não era muita. A cada parágrafo, levantava a cabeça para espiar as vidas ao seu redor. O ruído de diversas conversas simultâneas e o som agudo indistinguível produzido por um bebê ocupavam sua mente. Além de tudo, uma senhora acima do peso devorava pastéis como se não existisse amanhã. Foram quatro, pelo que ela pôde contar. Se não se cuidasse, em breve teria um belo ataque cardíaco. E então, pensando em alimentação saudável, decidiu tomar um sorvete. Sabia que não devia, o corpo e a mente pediam no mínimo 3 quilos a menos na balança, mas hoje ela vestia calça jeans e blusa folgada, então tudo bem. Carregou a bolsa até o balcão e desejou que o sorvete viesse igualzinho à foto, milimetricamente colocado no copo descartável. Desejo frustrado. O que ela recebeu foi uma sombra, um esboço, perto da foto que via a sua frente.
Quantas coisas – e pessoas – são bonitas na teoria, na frase, na foto, mas que frente à vida, dentro de seus quartos, na prática, são tão diferentes?

Tantas coisas na sua vida eram meros disfarces para a inquietação interior! Pensou nas fotos que sorriu querendo chorar, nos telefonemas que atendeu querendo desligar, nos dias que saiu querendo ficar em casa, nos conselhos bonitos quando escritos no papel – mas inúteis na vida real. Tudo feito, dito e escrito pelo bem da boa convivência. Pensou também nas metades da sua vida. Alguns textos meio escritos, algumas atitudes meio tomadas, algumas frases meio formuladas, algumas palavras meio ditas, algum eu que permanecia seguro no seu colo – na coleira das formalidades – prestes a se desvencilhar desses braços que o seguram. Tudo pela metade. E assim, sem perceber, perdeu-se no meio da sua própria vida incompleta. Com um desejo imenso de acelerar o tempo, adormeceu no presente. 
Tanto adormeceu que só acordou quando percebeu que sujara a página branquinha do livro com chocolate. Largou o sorvete em cima da mesa, organizou a bagunça na cabeça, varreu as palavras para debaixo do tapete mais espesso que encontrou na sua mente, guardou seu livro na mochila, montou seu melhor rosto sereno e levantou. Torceu para que sua face não desmanchasse até chegar em casa.

Sem garantias.

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Não temos garantia de nada nessa vida. Planejamos o futuro, sonhamos com uma vida diferente da que temos hoje, desejamos tudo aquilo que hoje parece muito distante. Entretanto, não fazemos ideia se o vento da vida vai levar nosso barco para onde desejamos ir ou se uma tempestade vai jogar-nos no meio do mar. Não temos garantia daquilo que foi assinado, registrado em cartório e testemunhado por inúmeras pessoas. Não temos garantia das palavras ditas. Não temos garantia do que planejamos para o próximo mês. Não temos sequer a garantia da duração da nossa existência. Vivemos de incertezas. Inúmeras vezes nos vemos tomar outro caminho, antes mesmo de chegar ao destino do primeiro. Mudamos de ideia como trocamos de roupa. Mas, viver também não é um tiro no escuro. Por mais que as incertezas sejam mais certas que as certezas, não arriscar é não se dar a chance de acertar – ou de errar, e ver sua vida de uma forma inimaginável. Os planos que fazemos não são como o que é escrito na rocha. Muitas vezes, eles não permanecem. Na maioria das vezes, aliás, são como o que é escrito na areia da praia: o mar leva, mais cedo ou mais tarde. Mas, tudo o que o mar leva, ele trás de volta – ainda que traga diferente. Mesmo que as coisas não tenham acontecido da forma que esperávamos, a cada 24 horas temos um novo dia para refazermos nossos planos e quem sabe, mudar nosso destino. Basta ter coragem.


Balão de ar quente

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Chega a noite e com ela o peso do cansaço, que recai sobre meus ombros. Deitada com a cabeça no travesseiro e com o coração na mão, as palavras começam a surgir em rápidos lampejos, luzes, imagens disformes em sonhos superficiais num sono que sequer começou. Prendi-me então à imagem de um balão de ar quente, colorido, flutuando na velocidade do vento, sereno, com as tochas de fogo o mantendo no ar.
Suas várias faces coloridas assemelham-se com as diversas pessoas que sou em uma só. Filha, irmã, namorada, neta, sobrinha. Sensível, inconstante, crítica, companheira, prestativa, mau-humorada.Tantas formas distintas, complicadas de administrar em suas diferenças. Cores que em conjunto formavam o envelope do balão. 
Mas, o contraste fogo-ar foi motivo de uma observação mais profunda. Assim como eu, o balão necessita de algo para mantê-lo aquecido, para permitir que continue a voar. Planos pro futuro, lutas diárias, problemas, perdas e ganhos. Tudo isso me mantém aquecida, o afinco e a determinação não se perdem quando existe motivação. 
Já o ar, com toda a sua serenidade, é a parte de mim que precisa de cuidados, de atenção, de carinho, de demonstrações. São essas coisas da vida que a tornam mais leve, que tornam a jornada menos cansativa. E são elas que – percebi depois – não aprendi a pedir. Pra mim certas coisas não se pedem e por isso, acabo deixando passar – frustada – os momentos em que precisei de carinhos que não vieram. Culpa minha também de querer que adivinhem o que acontece comigo e as reações que eu espero. Mas isso tudo acontece por não querer pedir. Sei bem que o orgulho em reconhecer que sou mais frágil do que demonstro é a causa de tamanha frustração. Os orgulhosos causam sua própria tristeza. 
Por último, me atentei para o fato de que o piloto não pode manobrar o balão. Como em quase tudo na vida, o controle que tenho sobre as situações é limitado. Muitas vezes, a única coisa a fazer é usar o vento a meu favor, rir dos problemas e não perder a cabeça quando eles se acumulam.

O que importa, no fim das contas, é manter o balão no ar. Organizar as minhas várias faces, ver os obstáculos como combustível, ser transparente nas expectativas, ter tranquilidade quando as coisas não saírem como planejado. Permanecer leve e aprender a ter mais serenidade. E seguir.

Mude.

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Ei, você aí! Não, nem olha pra trás que eu to falando com você mesmo. Você, com essa cara séria, com várias páginas no navegador abertas, com preguiça de levantar da frente desse mundo impessoal e intocável. Você, que tem celular, ipod e tablet à distância de um braço esticado, mas não tem ninguém pra dar a mão. Você, que a muito não pisa com os pés descalços nesse chão duro e incerto, mas prefere a segurança de um par de chinelos macios. Você, que tem roupas acumuladas – assim como um absurdo de sentimentos empoeirados -, mas deixa tudo ali, afinal, daria um trabalho imenso organizar a bagunça que a sua vida se tornou. Você, que passa os dias no piloto automático e sequer vai perceber quando inesperadamente, o avião da sua vida começar despencar. Você, que vive alheio ao mundo, como se fosse realmente possível alhear-se a algo em que se está dentro todos os instantes. 
Vou te dizer uma coisa: Acorda! Acorda enquanto ainda é tempo de perceber que você não pode passar a vida inteira lacrado nessa caixa que você mesmo se colocou. Acorda pra enfrentar os medos, pra enfrentar o mundo real fora dessa tela. Não deixe seus problemas por conta do tempo. O tempo é cruel e este sim, alheia-se ao mundo. Ele é insensível as suas dores, aos seus problemas e não espera que você dê a ”volta por cima” para continuar a correr. Ele simplesmente passa. Ao invés de acelerar o passo para acompanhá-lo, apenas torne-se o melhor que você pode ser – e não espere por ninguém -, são raras as pessoas que vão parar a vida para cuidar da sua. E lembre-se: quando encontrar alguém que o faça, não se perca dela.
Não ocupe seus dias com coisas que você não pode resolver, mas não se conforme com aquilo que não te faz bem. Arrisque-se pelo desconhecido, aproveite a areia embaixo dos seus pés, estenda a mão pra quem anda ao seu lado. Entenda que o que é seu somente vai chegar até você se os muros ao seu redor forem derrubados. Coloque a baixo as pedras que se amontoaram e construa sua escada para alcançar o inalcançável.

Jamie Cullum – Mind Trick 

A caixa de lenços


Entrei mais uma vez no consultório e observei a caixinha de lenços ao lado da poltrona. Qualquer coisa poderia ter me chamado atenção, – a baixa luz da sala, a estante completamente cheia de pequenos objetos, os livros de Psicologia na mesa – mas nada me pareceu mais interessante do que os lenços de papel.
Aquela caixinha permanecia ali, intacta, enquanto vários tipos de personalidades e de problemas entravam e saiam do consultório. Viu pessoas mexerem em suas feridas mais profundas – que ainda não haviam cicatrizado – sem derramarem uma lágrima. Pessoas que já levaram tantos tapas na cara da vida, que não se permitiam mais deixar escorrer uma lágrima, por puro orgulho. Viu também pessoas lutarem contra o choro, resistindo a fazê-la útil, fugindo dos pensamentos mais dolorosos pra evitar demonstrar o sentimentalismo à flor da pele. Além destas, viu pessoas que não tinham problema algum em usá-la, deixando escorrer pelo rosto toda a mágoa e sofrimento existentes dentro de si. Viu homens, mulheres, jovens e crianças. Gente que não sabia que caminho seguir na vida, gente com inseguranças aparentemente incuráveis, gente que perdeu pai e mãe muito cedo.

Onde eu me encaixaria então?
 Afinal, sempre sofri calada. Quieta, de poucas palavras disfarçadas em grandes sorrisos. Cresci fantasiando, ignorando a realidade e o mundo em que vivia. Entretanto, a fé na humanidade perdeu-se à medida que vi todos os meus planos escapando por entre meus dedos. Hoje, não quero mais saber de borboletas no estômago. Pensando bem, não sei quem teve a infeliz ideia de dizer que ter borboletas no estômago é bom. A agitação em um lugar tão impróprio culmina em vômito, que não demora a chegar. Perdoe a negatividade, mas em certo momento percebemos que as pessoas não são como pensamos e a partir daí, vem os desapontamentos. Percebemos que não conhecemos nem mesmo as pessoas que nos cercam. O choque de realidade resulta em incredulidade.
Diferentemente do que esperava que acontecesse, comecei a chorar enquanto falava. Não prendi as lágrimas, não enganei minha mente quando esta chegou perto da minha ferida aberta. Chorei. Ao meu lado, a caixa de lenços fazia seu papel, de papel. Percebi então que era demais exigir de mim o conhecimento de cada pessoa ao meu redor, enquanto não consigo sequer definir que tipo de pessoa o lenço de papel veria quando a sessão com a psicóloga começasse. Desejar de todo o coração não torna alguém o que queremos que ela seja. 
Expectativas foram criadas para serem frustradas. 

Superman-Five for Fighting

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A querida Evelyn do Good Luck Eve me deixou muito feliz hoje quando entrei na sua página e me deparei com um post feito por ela sobre o meu blog. Muito obrigada mesmo, Evelyn! Vocês podem conferir o post aqui. Beijo grande!


Você tem um amor pra vida inteira?

O amor nos cerca. Nas revistas, o amor entre duas celebridades. Na televisão, o romance complicado entre o casal protagonista. Nos dias comemorativos, a paixão é vendida em forma de corações de chocolate, flores e cartões. Nas redes sociais, declarações melosas e juras de amor eterno. Vivemos a era dos relacionamentos descartáveis. Cada vez mais cedo adolescentes começam a namorar. Cada vez mais cedo, casamentos são realizados – ou por amor ou pela obrigação que uma gravidez indesejada implica – e cada vez mais cedo, são desfeitos. Afinal, pra quê continuar em um relacionamento se as coisas estão difíceis, enquanto existem inúmeras outras opções pra se escolher? O anel no dedo não significa mais comprometimento e a fidelidade é quase inexistente.
Na contramão do mundo, chego a pensar que errada sou eu – errada, quadrada, ultrapassada ou conservadora, como queira chamar – por ainda crer em amor pra vida inteira, fidelidade, companheirismo e persistência. Por mais que tente, não consigo compreender um amor que trai. Por mais que tente, não consigo entender como o sexo tornou-se o máximo de profundidade que os relacionamentos conseguem alcançar. Acredito na felicidade a dois, na determinação em vencer desafios diários por ter um porto seguro ao lado e, principalmente, acredito em lealdade.
A história de Chris Medina e Juliana Ramos é um exemplo que me faz permanecer acreditando. Chris participou do show American Idol e lá contou sua história. O casal estava noivo há dois anos e formavam um belo casal. Dois meses antes do casamento, no dia 02 de outubro de 2009, o carro de Juliana foi atingido por um caminhão. A jovem bela e sorridente quase não resistiu à fratura no crânio que a deixou desfigurada. Em homenagem à Juliana, Chris escreveu a linda música “What are words”:

“Onde quer que esteja, estou por perto
Em qualquer lugar que você vá, eu estarei lá
Sempre que você sussurrar meu nome, você verá
Como eu cumpro cada promessa
Porque que tipo de cara que eu iria ser
Se eu te deixasse quando você mais precisa de mim’’

Talvez alguém me diga que preciso aprender da vida através de duras lições que exemplos assim são raros e que a dor que endurece o coração me tornará diferente do que sou hoje. Entretanto, prefiro fechar os olhos pro pessimismo e desilusão do mundo. Não vejo sentido em viver de superficialidades e em disfarçar o medo do envolvimento, enquanto a única coisa que realmente se deseja é uma companhia sincera. Hoje tenho ao meu lado o homem que amo, com quem pretendo estar pelo resto dos meus dias. Isso é mais que suficiente pra deixar de lado toda a descrença.
E você? Tem um amor pra vida inteira ou um amor descartável? 

Pra quem não conhecia a história, veja o vídeo abaixo. E a música ‘What are words’ vale a pena ser ouvida!
Chris Medina e sua história – American Idol

What are words – Chris Medina