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Onde está Olivia Pope?

Alberto Nisman Entre um episódio e outro da série Scandal e na espera ansiosa pela terceira temporada de House of Cards, abro sites de notícias e me deparo com a seguinte matéria: “Promotor argentino que denunciou Cristina Kirchner é encontrado morto”. Paro, leio, releio. Alberto Nisman, promotor federal, foi encontrado morto no banheiro de seu apartamento, no bairro portenho de Puerto Madero. A seu lado havia uma arma e um cartucho de bala. A porta do apartamento estava trancada por dentro. Surge então a primeira e mais óbvia resolução para o caso: suicídio. Onde está Olivia Pope quando mais se precisa dela? Explico.

18 de julho de 1994. 85 pessoas são mortas e 300 ficam feridas num atentado contra a Amia – Associação Mutual Israelita Argentina -, centro de convivência de judeus em Buenos Aires. Procuradores argentinos, anos mais tarde, acusam formalmente o Irã e o grupo xiita Hizbollah pelo crime.

“Não fomos nós”. Denúncias de compra de depoimentos. Interpol expede ordem de captura contra ex-funcionários iranianos. Acordo entre Irã e Argentina para esclarecer a responsabilidade pelo atentado paralisa a ordem da Interpol. Comunidade judaica da argentina não gosta. Nem o promotor Alberto Nisman, que não tinha conhecimento do acordo. Escutas telefônicas. Denúncia contra Cristina Kirchner. Ministro das Relações Exteriores, Héctor Timerman, o deputado situacionista Andrés Larroque, os líderes sociais kirchneristas Luis D’Elia e Fernando Esteche, o ex-juiz de instrução Héctor Yrimia e o líder comunitário iraniano Jorge Yussuf Khalil também são acusados.

A denúncia, baseada em escutas telefônicas, acusa Cristina Kirchner e os outros nomes citados acima de encobrirem os suspeitos do atentado contra a Amia. O motivo: impunidade em troca de petróleo. Pra quê justiça, quando se tem uma crise energética gigantesca no país? A oposição aguardava ansiosa a presença do promotor no Congresso, nesta segunda-feira, ocasião em que seriam revelados detalhes da denúncia feita na quarta-feira passada. Sua escolta deveria buscá-lo hoje às 11h30 da manhã. Nisman, que já vinha recebendo ameaças, disse em entrevista que “poderia sair morto disso”.  Infelizmente, foi o que aconteceu.

Segundo o jornal Clarín, os primeiros resultados da autópsia do corpo de Alberto Nisman já estão nas mãos da justiça e devem ser divulgados para a imprensa ainda hoje. O secretário de Segurança, Sergio Berni afirmou que “todos os caminhos levam a um suicídio”. Bem conveniente.

Jogos de poder, conspiração, manipulação de fatos e pessoas, chantagens, acordos feitos por debaixo dos panos, provas que desaparecem, ataques ao caráter que geram desmoralização, assassinatos. Esses são ótimos enredos para filmes e séries, mas que se mostram cada vez mais reais em casos como o de Nisman. Não sabemos o que vem por aí, qual será o resultado da balística ou da autópsia. Mas, não consigo ser muito positiva. Parece que sempre existe um poder maior do que o poder da democracia. E existe mesmo. Infelizmente Nisman não esteve hoje no Congresso mostrando as provas em que fundamentou sua denúncia. E nem estará. Inclusive, não sabemos sequer onde estão as mais de 300 gravações de escutas telefônicas, realizadas nos últimos anos e que estavam com o promotor. É mais um triste fato a ser registrado na investigação, que tem se arrastado nos últimos 20 anos.

A morte do promotor pode sim, não ter nada a ver com Cristina Kirchner ou com a denúncia feita poucos dias atrás. Mas as suposições feitas sobre a morte de Alberto Nisman não são fruto de teorias da conspiração. Um promotor morto por um governante de um país? Um enredo que Frank Underwood, Olivia Pope e seus gladiadores, Cyrus Beene, Jack Ballard, Rowan Pope e o B613 não estranhariam. Porque deveríamos nós? A república vizinha sofreu hoje um grande golpe e se as respostas não surgirem, as teorias virão. E, em ano eleitoral, a morte do promotor pode refletir fortemente.

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