Conselhos mudos

Sad_Old_Man

Não vou ocupar muito do seu tempo contando a minha história. Você parece ser impaciente demais pra escutar sobre um passado tão velho que cheira a mofo.
Nasci em 1927 e nesses 86 anos de vida vi o mundo mudar. Fui criança na Era Vargas e recebi as cartilhas de Getúlio. Vi o início, meio e fim da Segunda Guerra Mundial. Tornei-me médico, casei com Amara em 1958, tive dois filhos. Cantei “Chega de Saudade” e “Desafinado”.  Vi o auge da opressão na Ditadura Militar e presenciei sua queda. Comemorei a Nova República. Estoquei mantimentos por causa da inflação. Meus filhos casaram-se e foram viver em Santa Catarina.  O câncer de mama levou minha esposa aos 52 anos. Aposentei-me.

Vivo só. Tenho um bom apartamento, bem ventilado, grande. Grande demais. Da televisão vem o único som que preenche o lugar. Passo o dia sentado na poltrona passeando pelos canais da TV. Antes lia muito, agora a visão cansada não permite mais.
Se me sinto sozinho? Não. A solidão é a liberdade que dou aos meus filhos de viverem suas vidas. Além do mais, acostumei-me a ela. Melhor estar na ausência de pessoas do que rodeado de companhias vazias.

Todos os dias o Raimundo, meu taxista, me pega em casa às 12h. Como você vê diariamente, almoço aqui no shopping. Gosto de sentar e olhar ao redor, analisando as pessoas que passam. Não é por querer que os velhos adquirem esse rosto de sabedoria muda. É pelo muito pensar. Tenho um mundo particular aqui dentro, que adoraria aconselhar cada pai apressado, cada mãe irritada, cada filho mal educado. Gostaria de dizer-lhes que a única garantia que temos quando nascemos, é que vamos morrer um dia. Vivemos como se nunca fosse acontecer conosco, como se a morte fosse uma piada de mal gosto que ninguém quer fazer parte. Um puxão repentino que te leva pra debaixo da terra, e não te dá tempo de despedir-se de ninguém. Não te dá tempo de arrumar as malas, guardar os papéis, doar o dinheiro acumulado que não vai mais te servir de nada. Não te dá tempo de acalmar as pessoas ao seu redor, de prepará-las pra sua eterna ausência e evitar a perplexidade. 
Mas, quem escuta gente velha?

Preferem olhar-me com curiosidade, sorrindo dos meus passos vagarosos, irritando-se quando atrapalho seu percurso corrido, ou ainda sentindo pena do velho solitário no meio do shopping. Não entendem que talvez, daqui a alguns anos, estarão eles também no meu lugar. Terão dificuldade pra andar, enxergar, ouvir e compreender. Precisarão de ajuda ao atravessar a rua. Isso se não partirem antes, no meio de um tiroteio, por causa de uma doença repentina ou de um motorista embriagado. Isso se não deixarem seus filhos perguntando o porquê tão cedo. E terão todas as pistas da sua existência apagadas pelo tempo.

Meus filhos chorarão a minha morte. Meus netos, lembrarão de mim por algum tempo e quem sabe, citarão meu nome em um jantar de família com os bisnetos que não conheci. Com alguma sorte, terei uma fotografia amarelada no velho álbum de retratos esquecido dentro do armário. Logo, o álbum também não existirá mais. Em pouco tempo, todo o legado da minha existência desaparecerá. As gerações seguintes carregarão o meu sobrenome, sem jamais saber quem fui. E assim acontecerá com você também.
Você pode trazer a conta?

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11 pensamentos sobre “Conselhos mudos

  1. Primeiro eu gostaria de dizer que o cabeçalho de seu blog é muito bonito.
    E, sério mesmo, há muito tempo não leio um texto tão bom quanto esse seu. Acho que ele é tão sincero e real.
    Essa frase é muito, muito, muito marcantes: ” Melhor estar na ausência de pessoas do que rodeado de companhias vazias.”
    Eu lembro do porquê é melhor estar sozinha de vez em quando.
    http://doisquintos.blogspot.com.br/

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  2. Bruna M. disse:

    Le esse foi um dos seus melhores textos! Sério mesmo, fiquei emocionada ao ler! Me identifiquei muito com essa solidão de gente velha ;d

    Beijão

    http://umagarotaeseujeans.blogspot.com.br/

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  3. Triste realidade.
    Pior que todos passarão por isto, logo deveriam começar a mudar desde já.

    Lindo texto, Le.

    PS: O aeroporto continua, e obrigado pelo comentário no Emilie escreve.
    Bjs

    Histórias, estórias e outras polêmicas

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  4. Sabe, ando pensando mais do que eu queria nessa história de morte. Fico pensando como deve ser ficar velho e esperar a morte, como deve ser depois e antes. Da até arrepios. Não gosto de pensar nisso, mas seu texto foi muito bonito e completamente verdadeiro.
    Beijão
    barradosno-baile.blogspot.com

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  5. Sei se vai ser assim não. Mas, ok. É um belo texto para uma reflexão.
    {Emilie Escreve}

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  6. Mariana Gomes disse:

    Achei, um dos seus textos mais geniais. Tão verdadeiro, tão sincero, tão profundo. Essa frase “Gostaria de dizer-lhes que a única garantia que temos quando nascemos, é que vamos morrer um dia.” é incrível.

    Beijos,
    biblioteca-de-resenhas.blogspot.com.br

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  7. Carolina Maia disse:

    Ei moça, conheci seu blog hoje.
    Hoje fui ao médico e uma velhinha passou mal ao meu lado depois de contar o quanto se sentia sozinha.
    Ajudei-a e me senti mal por nao poder fazer mais e cuidar dela.
    Mas temos tantas pessoas para cuidar perto e nao damos conta ne?
    Perdemos tempo com tanta coisa inutil e futil.
    Uma hora aprenderemos.
    Adorei sua reflexão. Foi madura e direta.
    Amei o post. Alias, o layout do seu blog é lindo 🙂
    Beijos, boa noite!
    Carolina Maia
    http://www.carolinamaia.comhttp://www.facebook.com/reinventingstars
    Blog de moda, decoração, unhas, opinião masculina, academia, alimentação, entrevistas e ideias criativas.

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  8. Adorei seu texto.
    A ultima vez que fui ao hospital com a minha avó tinha uma velhinha cega esperando o filho fazia 3 hrs para ir busca-la. Depois de uma hemodiálise.
    Muito lindo.
    Bj

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  9. Jhosy . disse:

    Uau!
    Fiquei meio abobalhada. Sem palavras.
    Tinha tempo que não lia algo de que gostava tanto.
    Simplesmente perfeito. E eu não acrescentaria nada.
    Parabéns por esse texto e pela profundidade das palavras e da mensagem!

    Um beijo,
    Jhosy

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  10. Nath Lambert disse:

    Gostei muito do texto, por um segundo achei que tinha sido realmente escrito por alguém dessa idade!
    “Melhor estar na ausência de pessoas do que rodeado de companhias vazias”. Essa frase é muito sábia. Nem me sinto na obrigação de explicar por que.
    Adorei mesmo =D

    Beijos!
    http://www.nathlambert.blogspot.com

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  11. Diego Augusto disse:

    Lindo texto. Ótimo para se fazer uma reflexão. Será que minha velhice será assim? Chegarei a velhice? Me angustia não poder saber como será.
    -Distante do Sol-

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