As correntes que me prendem

Trecho do filme 12 anos de escravidão – Música: Roll Jordan Roll
 

Eu poderia facilmente ter perdido as contas sobre o tempo que passei aqui, já que não existe nada que diferencie um dia do outro. Mas, lembro-me bem de cada momento – não é fácil esquecer quando somos marcados pelo ferro. O levantar antes do sol nascer, a comida insuficiente e amarga, o trabalho esgotante, o gosto salgado do suor a escorrer pelo rosto, o colchão de pedra que ironicamente afaga a exaustão. Repetindo-se. Dia após dia. Ano após ano.

Faço parte de uma legião de negros de expressões vazias, vagando, tantas vezes banhados em sangue. Sentindo a mais profunda crueldade humana ser derramada sobre nossos corpos escuros, sem piedade. Porque, afinal, não somos humanos. Somos animais domesticados pelo açoite, que aos gritos e abusos não podemos dar resposta. Como cachorros, baixamos a cabeça, sem nunca revidar.

Ainda sou jovem, mas estou certo de que não viverei por muito mais tempo. Nasci escravo e assim morrerei. Sobrevivendo a cada dia, nunca tive alegrias. De pôr do sol a pôr do sol, não me lembro de um momento sequer de conforto. Endureci bem cedo o meu coração – cada um tem a sua forma de lidar com a dor. Vi alguns enlouquecerem, outros ficarem cegos pela raiva e muitos emudecerem em profunda desilusão. Vi tantos outros, em meio a gemidos, preces e sorrisos, buscarem um conforto – na fé, no amor, na esperança.

Nunca esquecerei o canto que sai daqueles lábios grossos e ressecados, tão semelhantes aos meus. Nesses frequentes momentos, enterramos nossos mortos e a eles oferecemos uma canção, com vozes unidas em uma só. Muitas vezes não cantei. Apenas observava, sentia e ouvia. O som das palmas, das vozes envoltas em sentimentos inexprimíveis, os rostos num misto de revolta, dor e desespero – mas que em algum momento, deixavam transparecer um resquício de esperança num leve traço de sorriso. Esqueciam-se por um instante, envolvidos pela melodia, do sono interrompido pelo chicote. Do som que fazia o arquejo e o último lamento dos que morriam todos os dias. Das lágrimas engolidas pelo chão imundo em que dormiam. No canto fúnebre, cantavam sobre a liberdade que nunca poderiam ter. Ou sobre a morte, tantas vezes em dor almejada.
 
Famintos, sedentos, tão cansados e infelizes. Um dia cairemos para nunca mais levantar – pelo açoite, pela peste, pela fome ou pela exaustão. Não vivemos muito, então sabemos que será logo. Cantamos com a certeza de que um dia cantarão para nós. Naquele dia, as correntes que nos prendem nunca mais tocarão os nossos braços. E finalmente descansaremos.
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6 pensamentos sobre “As correntes que me prendem

  1. Cada dia melhor amor! Parabéns.

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  2. B. disse:

    Não assisti o filme ainda, mas seu texto é fantástico e comovente. Parabéns.

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  3. Sem comentários….perfeito Lenise!
    Saudades, vc anda sumida.
    Aparece mais.

    http://detudoumpouco28.blogspot.com

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  4. Diego Augusto disse:

    Tocante. Nosso passado é tão vergonhoso, e infelizmente o presente, apesar dos grandes avanços, carece de muitas evoluções. Não assisti o filme, mas espero fazê-lo em breve.

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  5. Adorei! Gostei muito mesmo! Acho que esse texto despensa comentários, só provoca reflexões.
    Beeeeijoooos

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  6. Anônimo disse:

    Despensa é pra guardar mantimentos. Dispensar comentário é o correto.

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