Intransponível

 
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A vida nos oferece constantemente desafios a serem superados. Em cada fase das nossas vidas, ultrapassamos barreiras e vencemos obstáculos. Não raro, encontramos um oceano de problemas que parece intransponível. E como é fácil desanimar enquanto nadamos contra a correnteza! É tão mais fácil deixar-se levar pelas águas e sentir o corpo escorrer para o desconhecido. É tão mais fácil desistir da vitória e contentar-se com a derrota pelo cansaço que a luta traz. Como é fácil desistir e trancar os sonhos numa gaveta – jogando a chave para bem longe – fugindo do fantasma que persegue as consciências atribuladas. Na ânsia de sair do nosso presente cruel, nos prendemos ao passado e constantemente dizemos: Como é fácil ser criança!

Infelizmente, perdemos ao longo dos anos as lições aprendidas na nossa infância. Você, como eu, foi um bebê dependente e frágil. Acompanhávamos o que acontecia ao nosso redor com olhos curiosos. Descobrimos aos poucos nossos pequenos dedinhos e os observávamos atentamente. Demos nossos primeiros sorrisos, acompanhados da alegria daqueles que nos cercavam – que permaneceram nos cuidando, alimentando e acariciando. Pouco tempo depois, já tentávamos alcançar os objetos que encontrávamos na nossa frente. Balbuciamos os primeiros sons e percebemos a desaprovação na voz dos nossos pais. Começamos aos poucos a sentar sem apoio e rapidamente, nossos pais já não sabiam onde nos encontrar – já podíamos engatinhar. Logo, arriscamos a ficar de pé. Segurando na mão das nossas mães, sentíamos a segurança necessária para arriscar os primeiros passos. Em pouco tempo, caminhávamos sem ajuda. Em pouco tempo, falávamos. Em pouco tempo, crescemos. E não nos demos conta disso.

Desde crianças aprendemos a superar desafios, a enfrentar os medos e arriscar. Não desistimos de aprender a caminhar, mesmo sem ter ideia de como deveríamos começar. Não desistimos de aprender a falar, mesmo sabendo apenas balbuciar sons inteligíveis. Algumas vezes, superamos sozinhos as nossas dificuldades. Outras, precisávamos de uma mão a nos segurar. Agora, enquanto adultos, nos esquecemos de que, antes de caminhar, engatinhamos. Antes de engatinhar, aprendemos a nos sentar. Esquecemos que, no passado, com muita humildade, aceitamos os conselhos dos mais velhos e escutamos o que nos tinham a dizer. Demos um passo de cada vez antes de começar a correr.

O oceano que surge impetuoso na nossa vida não desaparece pela força do nosso desejo. Ele irrompe nossos dias e tenta nos afogar no nosso medo. Lembre-se então dos seus dias de criança e dê um passo de cada vez. Olhe para trás e pense no que a criança que você já foi um dia faria no seu lugar. Procure segurança naqueles que nunca o desampararam. Deixe a criança que você foi orgulhosa da pessoa que você se tornou. E transponha o intransponível.

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9 pensamentos sobre “Intransponível

  1. B. disse:

    Acredito que através do teu texto aquela frase se torna essencial “nunca deixe morrer, a criança que está dentro de você”. Sua percepção de mundo, em relação a esse assunto e sua comparação foram inteligentes. Gostei bastante.

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  2. Nós crescemos, perdemos a inocência em troca de responsabilidades.
    Concordo plenamente com a B. Se deixarmos morrer a criança que está dentro de nós envelheceremos muito mais rápido.

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  3. Engraçado,
    a oportunidade vem e a gente não sabe o que fazer com ela. A vida é feita de arriscar.
    eu arrisco errado tantas vezes…
    queria ter uma máquina do tempo pra saber oq vai acontecer.

    lê, tu escreve mto bem.
    bjbj saudades

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  4. Mariana Gomes disse:

    “pense no que a criança que você já foi um dia faria no seu lugar” ultimamente tenho feito isso, sabe? Ao longo do tempo a gente vai perdendo nossa essência infantil e arcando com mais coisas, e acaba se perdendo. Acho importante manter isso, por mais que se cresça, é essencial ter uma alma jovem e feliz como de uma criança. Lindo texto, adorei!

    Beijos,
    biblioteca-de-resenhas.blogspot.com.br

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  5. Acredito que temos que viver de acordo com nossa vontade, nos orgulharmos de si mesmo, por que no final é isso o que conta. A criança que você deixou crescer não deverá morrer nunca.
    Myllena, Minhas Pequenas Verdades

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  6. Muito lindo o texto, realmente me fez pensar sobre várias coisas.

    Sou novo aqui, adorei seu blog e estou seguindo.
    Gostaria de te convidar para conhecer meu blog. Se gostar, tem como seguir também?
    Beijo,
    http://umviciadoemlivros.blogspot.com.br/

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  7. Na verdade, se for pegar a lição de quando éramos crianças, o que fica é que a gente só consegue superar os obstáculos com o apóio de alguém (bebês são fragéis demais pra tomarem conta de si).

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  8. Diego Augusto disse:

    As vezes não que transpor o que me vem a frente. Apenas dou meia volta. Derrota? Fracasso? Não sei, apenas outro caminho.

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  9. Que texto magnífico! Eu nunca tinha parado para pensar nisso, que nós realmente nos esquecemos de que tivemos que ir aprendendo uma coisa de cada vez quando éramos crianças. O último parágrafo foi genial, me fez refletir sobre a maneira como eu lido com as situações. Com certeza na próxima eu vou tentar deixar a criança que eu fui um dia mais orgulhosa.

    Beijos, Anna
    http://www.annadecassia.com

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